domingo, 8 de Novembro de 2009

olha que este post tem bolinha...



Conheço poucos programas que, sendo proíbidos a menores de 18, sejam verdadeiramente aconselháveis a maiores. Afinal estamos a brincar a quê? Aos fortalhões que acham que já não se podem corromper?

sábado, 7 de Novembro de 2009

o direito ao voto revisto pel'A Conspiração

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Proponho que o direito ao voto seja um direito conquistado, e não apenas dado a quem faz 18 anos e simplesmente se dirige à Junta de Freguesia para preencher os papéis em cinco minutos. O direito ao voto conquistar-se-ia fazendo 50 horas de trabalho comunitário, ou de serviço social.
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A lista de oportunidades seria muito ampla, à escolha do cidadão que quer votar pela primeira vez: pode ser o voluntariado numa ONG, num lar de idosos, em visitas a prisões, na sopa dos pobres, no Dia da Defesa Nacional, em serviços de limpeza, ou de jardinagem pública, e por aí fora. 50 horas passam num instante, é por exemplo um fim-de-semana dedicado a uma causa.
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O voto seria assim mais informado e consciente. O facto de ser conquistado e não apenas dado tornaria o voto mais valioso para o eleitor que o usa ou dele prescinde. Isto porque o voto e a abstenção têm de significar algo de mais concreto do que aquilo que hoje em dia significam, que é muito... e também é nada.
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quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

felicidade triste

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Quem inventou que triste não é feliz? Quem não é feliz é infeliz, que é muito diferente de se ser triste! A tristeza, por exemplo, costuma até ser bela - coisa que a infelicidade nunca é. Qualquer português pode e deve ser feliz, mas... sendo português, nunca deixará de ser triste. É uma e outra coisa, sem prejuízo para ambas. Um pouco ao jeito do contentamento descontente pelo Poeta cantado.
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terça-feira, 3 de Novembro de 2009

d'a arte de ser português

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Sim: o bom português necessita de conhecer e comungar a alma pátria, a fim de se guiar por ela, no seu labor. Depois legislará, reformará ou criará literária e artisticamente uma obra duradoura e útil.
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in "A Arte de Ser Português", de Teixeira de Pascoaes (1877-1952)
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segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

o admirável mundo wordle

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Wordle é um instrumento gratuito que nos permite ver as palavras mais presentes num texto que escrevemos ou analisamos. Pode ser interessante fazer um wordle de discursos políticos, de textos maçadores que nos dão, ou até dos nossos próprios escritos. A imagem de cima, por exemplo, é a nuvem de palavras utilizadas em "a nova comunicação: de linear a hipertextual". Fazer uma nuvem destas não podia ser mais simples, basta apenas copiar o texto que queremos, colá-lo na página do wordle, e a geringonça trabalha sozinha. Experimentem!
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Acrescento: Ángela Paloma Martín, que também teve aulas com o Professor José Luis Orihuela, partilha aqui do mesmo fascínio pelo wordle.
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domingo, 1 de Novembro de 2009

Paulo "Guga" Teixeira Pinto (1986-2008)

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-Um ano. Até sempre, meu grande amigo.

s

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sábado, 31 de Outubro de 2009

experiências...

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- Há quanto tempo! Por onde tens andado?
- Estive a fazer voluntariado. Decidi viver um ano na Rocinha, que é a maior favela do Rio...
- De Janeiro?
- ... até Dezembro.
- Hum, sim. Interessante. E que tal foi a experiência?
- Foi má.
- Má?? Como podes estar um ano num sítio e a experiência ser má?
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quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

a nova comunicação: de linear a hipertextual

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Hoje falo sobre um dos novos paradigmas da comunicação: "de linear, a comunicação passou a ser hipertextual". Mas antes, explico o porquê deste exercício.
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Estou neste momento numa aula de Nuevos Medios, que faz parte do Mestrado em Comunicação Política e Corporativa (MCPC), da Universidade de Navarra, onde curso. O Professor desta cadeira é argentino, chama-se José Luis Orihuela, e a sua proposta é que façamos um pequeno ensaio sobre um dos novos paradigmas da comunicação (link). É, pois, disto que este post se trata.
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"De linear, a comunicação passou a ser hipertextual", diz o autor. Como vemos na maior parte dos textos publicados em páginas web, o hyperlink está na moda. Tradicionalmente (nos livros, jornais, revistas...), o texto é uma sequência de palavras e ideias meticulosamente construídas, de uma forma linear e que tenta ser coerente. No entanto, não é assim que funciona a nossa mente. Basta repararmos nas conversas mais descontraídas que temos com os nossos amigos, em que saltamos de assunto para assunto sem esgotar os temas nem chegar a conclusão alguma. Ao conversarmos, estamos constantemente a "hiperlinkar".
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Há quem diga que Francis Bacon não tinha jeito para escrever, só para pensar; e se ninguém o disse, digo-o eu, porque é especulável e neste momento dá-me jeito. Explico-me. Não há qualquer dúvida que algumas das passagens literárias mais bonitas da Filosofia Política são da autoria de Bacon, autor que tinha uma habilidade enorme para produzir belas metáforas e assim ilustrar melhor o seu pensamento filosófico, usando os mais diversos recursos estilísticos com um fino sentido poético. Mas, na realidade, não sabemos se Bacon escrevia bem ou mal, porque pouco ou nada se conhece de escrito pelo seu próprio punho: era um secretário que anotava tudo, enquanto Francis dava voltas pelo jardim, soltando ideias para a atmosfera. Vidas boas...
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O que quero provar com este exemplo de há quatro séculos atrás é que não é necessária a velha forma de tecer um texto (porque um texto é um tecido) para sermos geniais. Basta escrevermos como pensamos, e hoje a internet permite-nos tal aventura. Mas... como nos ensina a sabedoria popular, "não há bela sem senão", e toda a aventura comporta riscos.
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O que é a comunicação hipertextual? É simplesmente poder escrever um texto e ligá-lo a qualquer outro texto, som, vídeo ou imagem que esteja disponível na Internet. Mas este modelo exige novas destrezas, quer para quem escreve, quer para quem lê. Para quem escreve, há que aprender a articular o texto com ideias, citações e links pertinentes, que possibilite ao leitor uma consulta fácil, mas ao mesmo tempo tentar que o texto escrito não perca a sua unidade. Para quem lê, é necessário um esforço maior para chegar ao fim, como aliás nota J.L.O. no seu texto.
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O grande risco da comunicação hipertextual é que, ao olhar para um texto assim, a coerência do tecido pode perder-se pelo caminho. Se me leu até aqui sem se perder pelos links que pus pelo caminho, autênticas armadilhas para o mais incauto, então muitos parabéns! Está preparado para enfrentar a comunicação do século XXI.
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quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

casa de pedra

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Recuso o chocolate,
triste gula,
ilusão de ti.
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Prefiro a realidade
complicada e dura;
meu coração é aí.
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quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

cuidado com a universidade que escolhes

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Só há um critério válido para escolher bem uma Universidade. Não é pelo prestígio que a escolho, nem pelas suas taxas de empregabilidade. Nada disso, o que tenho que fazer é uma pergunta muito simples: confio ou não nos valores morais desta universidade?
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Na universidade, tudo o que extravasa a ciência exacta, é manipulação política. Tudo. E quanto maior o grau e ritmo do desafio (pós-graduação, mestrado, doutoramento), mais conhecimentos nos metem goela acima, sendo difícil filtrar o que é mau e indesejável. Não temos escolha senão assimilarmos quase tudo sem cuidados.
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Para levar um curso a sério, é preciso fazer constantemente a promessa "não deixarei que me contaminem", tendo por certo que o farão. Estudar numa universidade e estar consciente daquilo que me fazem aprender para ter boas notas, é uma de duas:
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- ou a coragem de confiar nos valores que a instituição à partida me propõe;
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- ou a soberba temeridade de pensarmos que, à parte do canudo, vamos sair de lá iguais.
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Mas uma coisa é certa. Os momentos livres têm de ser de pura desintoxicação, mesmo quando confiamos minimamente na universidade em cujas mãos nos pomos. Há que pensar se aquilo que me disseram encaixa ou não nas prioridades que tenho de vida ou se, por outra, mudou as minhas prioridades, e se as mudou, se para melhor ou para pior. É tempo de aproveitar o bom que aprendemos e marcar com sinais visíveis o que não presta.
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Temos de ser os homens e mulheres livres, que preferem a dor da luz ao conforto das sombras. Infelizmente, se não temos cuidado, na universidade podemos ficar ainda mais aprisionados ao fundo da caverna. E não devia ser assim.
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sábado, 5 de Setembro de 2009

nesta Lisboa que eu amo...

Sou humilde, sou assim...! Ocupo tão pouco espaço que... caibo dentro de mim.

José Viana (1922-2003), grande actor e pintor. Aqui, na saudosa "Grande Noite" de Filipe la Féria, em 1990.

quarta-feira, 29 de Julho de 2009

o abstencionista

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Não me digam que abstenção é voto de protesto. Não é! Os abstencionistas são conformistas, nem que seja por se conformarem com o seu inconformismo. Deixam a decisão para os outros. No limite, os abstencionistas são os cidadãos mais felizes...! Confiam tanto nos seus representantes e instituições, que se dão ao luxo de se preocuparem somente com a esfera privada de suas vidas. Votar é-lhes um esforço inútil, porque qualquer resultado lhes agrada. A mim não, e por isso voto.
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sábado, 18 de Julho de 2009

as circunstâncias, iludem

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Visto à luz do sol

é apenas mais um insecto

o pirilampo

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in "O gosto solitário do orvalho", de Matsuo Bashô (1644-1694)

terça-feira, 14 de Julho de 2009

solo se vive una vez


Quem vive amores impossíveis compreende melhor aqueles que acreditam na reencarnação. "Noutra vida teríamos resultado", dizem, convencem-se e, por fim, se conformam. Isso enquanto silenciam as palavras sábias das pacenses Azúcar Moreno - solo se vive una vez!

sexta-feira, 3 de Julho de 2009

três autores, três apontamentos sobre a democracia

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- Idiotas. Caíram na armadilha das decisões por maioria. Acham que decidir por maioria é muito práctico e eficaz, mas, na verdade, é uma armadilha muito perigosa. Quando se decide por maioria, há duas coisas que nunca se deve fazer. Discutir as coisas e dizer o que se escolheu. Perde-se o anonimato e enfatiza-se a existência de uma maioria e de uma minoria. E depois, os da minoria começam a ficar com uma sensação de alienação, insatisfação e irritação. Em pouco tempo começam a ficar desconfiados e acabam por chegar à rotura. Ter opiniões diversas significa que os cinco vão perder. Parece que a rotura do grupo está prestes a acontecer.
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Tompa in "Hunter x Hunter", de Yoshihiro Togashi
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- Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.
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Winston Churchill
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- E dá bons resultados, a democracia?
- Não é possível saber. É segredo.
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Boris Vian
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quarta-feira, 1 de Julho de 2009

uma oportunidade para compreender os nossos jovens

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"Hunter x Hunter" é um anime que vale a pena conhecer. A exibição do primeiro episódio data de 1999 e baseia-se na história manga que continua hoje a ser calmamente escrita pelo seu autor de sempre, Yoshihiro Togashi. (Nota: por manga entenda-se a banda desenhada japonesa e por anime, os respectivos desenhos animados na TV.)
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Trata-se da história de 4 amigos que, entre perigosas aventuras vividas no limite, crescem juntos nos valores japoneses que lhes são incutidos enquanto frequentam os exigentes exames de caçador. Estes desenhos animados falam de honra e de verticalidade, aquilo que por cá se tornou difícil encontrar...
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No entanto, nada de confusões: são episódios para serem vistos com os pais, pelo menos até aos 15 anos. É que, a cultura japonesa, tem aspectos que exigem alguma preparação/maturidade para serem entendidos sem causarem lamentáveis danos colaterais na formação dos nossos jovens. É preocupante saber como certos pais não se interessam pelo anime, ou até desconhecem o que é. O anime está presente em Portugal à vários anos, mas agora é moda como nunca foi. Mais, saber um pouco de anime tornou-se essencial para percebermos grande parte dos adolescentes de hoje.
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"Hunter x Hunter" dá de 2ª a 6ª feira no Animax, mas quem quiser apanhar a série desde o princípio, este fim-de-semana também se transmite os primeiros 4 episódios nesse mesmo canal. Esta é uma das melhores oportunidades para quem se quiser estrear neste complexo mundo do anime.
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segunda-feira, 29 de Junho de 2009

pela ética da convicção, contra o voto útil

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Um dos melhores filmes que conheço é o Reino dos Céus (Kingdom of Heaven - 2005), dirigido por Ridey Scott e escrito por William Monahan. O facto de ser um romance histórico, e a necessidade de tornar a narrativa mais cativante e cinematográfica, não garantem precisão histórica, mas em todo o caso esta é uma excelente história que Ridley Scott nos conta. Tendo como pano de fundo a reconquista de Jerusalém pelos muçulmanos em 1187, vemos os extremistas de parte a parte a incitar à guerra que lhes interessava por "vontade de Deus". Este filme tem uma riqueza de conteúdos que permite ser o ponto de partida de várias discussões filosóficas e morais, mas hoje interessa-me aqui citar uns diálogos do "Reino dos Céus" que bem ilustram as éticas de Max Weber em confronto: a "ética da convicção" versus a "ética da responsabilidade".
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Rei Balduíno IV (R) - Decidimos que deverá tomar comando do exército de Jerusalém. Se eu deixar o exército com o Guy, ele tomará o poder através da minha irmã e declara guerra aos muçulmanos [comandados por Saladino].
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Balian, Barão de Ibelin (B) - Seja lá o que pedir, eu servirei.
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R - Não. Oiça tudo antes de responder. Casaria com a minha irmã Sibila [de quem Balian gosta], se ela estivesse livre do Guy de Lusignan?
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B - E o Guy?
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Tiberias, Raimundo III de Tripoli (T) - Vai ser executado. Assim como os cavaleiros que não lhe juram fidelidade.
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B - Eu não posso ser a causa disso.
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T - "Seja o que for que pedir, eu servirei"
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B - Um rei pode mover um homem, disse o senhor. Mas a alma pertence ao homem.
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R - Sim, disse isso.
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B - Aí tem o meu amor e a minha resposta.
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R - Então que assim seja.
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T - Porque é que protege o Guy? Ele é um homem que o insulta, que o odeia. Ele próprio o mataria se tivesse a oportunidade. Nem pela salvação deste reino, será assim tão difícil casar com a Sibila? Jerusalém não tem necessidade de um cavaleiro perfeito.
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B - Não. É um reino de consciência, ou nada.
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B - Sibila!
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Sibila (S) - Quem és tu para recusar o pedido de um rei? Eu sou o que sou. Eu ofereço-te isso. E o mundo. E tu dizes que não.
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B - Achas que eu sou como o Guy? Que eu seria capaz de vender a minha alma?
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S - Virá o dia em que desejarás ter feito um pouco de mal para poderes ter praticado o bem a uma escala maior.
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A dificuldade de muitas das nossas decisões não está em optar entre o bem e o mal, mas entre o ideal e o pragmático, o sentimento e a razão, a convicção e a responsabilidade. Este dilema ético acompanha qualquer pessoa nas suas escolhas ao longo da vida. Como deve ser a minha conduta? A minha ética é a da convicção ou a da responsabilidade? Umas vezes uma, outras vezes outra? Tentar arranjar um equilíbrio entre ambas, tal como sugere Max Weber, não será contaminar a pureza da ética da convicção e torná-la sempre, inevitavelmente, numa ética da responsabilidade?

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Lembro que José Sócrates, na práctica do auto-elogio em que recorre, disse que decidira que o Tratado de Lisboa não iria a referendo em Portugal por uma questão de ética da responsabilidade. Ou seja, para quem crê no valor da democracia ou no valor de honrar a palavra dada na campanha eleitoral, o sr engenhoso preferiu iludir esses valores a arriscar-se a ver o seu Tratado chumbado em referendo. Assim, sou pela ética da convicção em tudo, o mais possível, sem qualquer concessão e defendendo só aquilo em que acredito. Considero até um pouco descabido chamar "ética" à segunda hipótese. É por exemplo pela ética da convicção que desprezo qualquer apelo ao voto útil que façam os dois partidos do poder, ou os cinco da assembleia. Se nalgum deles votar, nunca será por esse repelente argumento, mas pelas suas propostas, ideologias (porque ainda as há), e pessoas. Pode-se dizer que, quem concorda mais com um partido numas eleições e vota noutro porque pensa ser mais útil assim, está-se alinhando por uma ética da responsabilidade (nada a fazer, a designação do Weber é mesmo esta...).

Defender a ética da convicção é proteger a pureza da verdade a todo o custo, numa atitude próxima do irrepreensível. O protagonista deste filme podia ter-se casado com a mulher que amava, ter-se livrado do fidagal inimigo, e ter-se tornado no seguinte Rei de Jerusalém, mantendo uma amigável paz com Saladino, e tudo isto se tivesse dito um simples "sim" ao seu rei. Mas preferiu dizer "não", apenas porque não concordou com o método traiçoeiro de afastar o seu pior inimigo para resolver todos os seus problemas e os do reino. É por isso que considero Balian um dos mais virtuosos heróis que o cinema produziu nos últimos tempos. E se alguém pensa que Balian escolheu a solução que lhe dava menos problemas, está redondamente enganado. Desde quando é que agir conforme a consciência é o caminho mais fácil?

sexta-feira, 26 de Junho de 2009

prémio lemniscata

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A Conspiração das Teorias recebe com surpresa e entusiasmo o Prémio Lemniscata, atribuído pela amiga Cristina Mendes Ribeiro, do Estado Sentido. Agradecemos a simpatia do presente e a aposta para o futuro, pois só assim podemos aceitar que este prémio é pela Conspiração merecido - merecemo-lo por todas as coisas boas que aqui ainda não se escreveram mas que, talvez, um dia surjam e o justifiquem. É então um estímulo. Muito obrigado!


"O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores. Sobre o significado de LEMNISCATA:LEMNISCATA: “curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.” Lemniscato: ornado de fitas Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores (In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)"
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Como devolver o prémio deve ser batota, os 7 blogues premiados são:
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- Fado Cravo (agora continuado em "Fadistas como eu sou")
- Sobre o tempo que passa
- Ilustrana
- Duhism
- Caminante
- Retrato de Vida
- Quadradinhos Que Não Vendem
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(todos eles na barra lateral d'A Conspiração)
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Michael Jackson (1958-2009)


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Have you seen my Childhood?
I'm searching for the world that I come from
'Cause I've been looking around
In the lost and found of my heart...
No one understands me
They view it as such strange eccentricities...
'Cause I keep kidding around
Like a child, but pardon me...
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People say I'm not okay
'Cause I love such elementary things...
It's been my fate to compensate,
for the Childhood
I've never known...
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Have you seen my Childhood?
I'm searching for that wonder in my youth
Like pirates in adventurous dreams,
Of conquest and kings on the throne...
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Before you judge me, try hard to love me,
Look within your heart then ask,
Have you seen my Childhood?
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People say I'm strange that way
'Cause I love such elementary things,
It's been my fate to compensate,
for the Childhood I've never known...
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Have you seen my Childhood?
I'm searching for that wonder in my youth
Like fantastical stories to share
The dreams I would dare, watch me fly...
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Before you judge me, try hard to love me.
The painful youth I've had
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Have you seen my Childhood...

quinta-feira, 18 de Junho de 2009

onde nasce o Fado

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É nas ruas, nas tabernas e nos bordeis que o Fado parece nascer, espontaneamente, como nascem certas flôres nos charcos: a Pontederia crassula, por exemplo, que é uma linda flor azul.
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in "A Triste Canção do Sul", de Alberto Pimentel
(1904)

segunda-feira, 15 de Junho de 2009

poesia chinesa de intervenção

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As famílias, quando uma criança nasce,

querem que ela seja inteligente.

Eu, que pela inteligência

me tenho prejudicado a vida toda,

apenas espero que a criança seja

ignorante e estúpida.

Assim, ela terá uma vida tranquila

e será um Ministro com gabinete.

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tradução livre a partir de Su Shi, poeta chinês (1036-1101)
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o valor que uma marcha tem

A Marcha do Castelo ganhou o concurso das marchas populares de Lisboa 2009, partilhando o primeiro lugar com Alfama. Ao primeiro lugar geral do Castelo, juntam-se os prémios de Melhor Coreografia, Melhor Cenografia e Melhor Figurino.

Neste pequeno grande bairro de Lisboa, os dias viveram-se com muita intensidade. Se os treinos da marcha começaram em meados de Abril com um ritmo de 6 a 8 horas de treino por cada semana, também é verdade que o tema, as músicas, os fatos, os arcos, os patrocínios e todo um planeamento logístico foram imaginados com ainda maior antecedência.

O resultado final que se viu nos 20 minutos de Pavilhão Atlântico no dia 7 de Junho, ou nos 7 minutos de Avenida da Liberdade na noite de 12 de Junho, é o fruto de um grande trabalho que envolve muito mais pessoas que aqueles cerca de 70 que têm a honra e responsabilidade de marchar. Aparecem os 24 pares de marchantes, um par de mascotes, uma madrinha e um padrinho (este ano, a Chiquita e o Joaquim Bastinhas), os suplentes, os doze músicos da banda, os aguadeiros, o porta-estandarte (Sr. Farra, marchante desde 1958), a ensaiadora Maria João Reis. Mas ainda há a Comissão Organizadora (Pedro e Ana Fonseca), a figurinista Rita Álvares Pereira, os cenógrafos Sr. José Ferrão e Sr. João Dourado; há os patrocinadores, há as claques, há os antigos marchantes que dão força aos novos, dando dicas e contando histórias, peripécias...

Antes de ir para o Pavilhão Atlântico ou para a Avenida, a Marcha do Castelo desfila pelas ruas do bairro, entoando os hinos que muitos conhecem. Aparece toda a vizinhança à janela ou às varandas, os que ainda podem descem à rua, marcham, cantam e batem palmas, todos dão ânimo àqueles que vão representar o seu bairro nas festas do Santo António.

Numa rua apertada do Castelo, estranha-se o pingo de chuva que consegue atravessar os quase unidos telhados que encimam as estreitas margens da viela. Olhando melhor, o céu afinal está limpo e a gota não era de chuva, mas a lágrima de uma velhinha debruçada na sua varanda, emocionada talvez pela sua juventude de outrora, de outros dias e de outras marchas...

- Adeus, adeus! O Castelo é que é...! Boa sorte, força!

São Jorge, Santiago, Santo António, São Vicente, Nossa Senhora, a Santa Cruz, o Espírito Santo... tantos são os santos que apadroam o Castelo, que marchar é quase uma fé. As amizades crescem, os amores também. Há espírito de grupo e alterna-se a chinela com o salto alto, conforme a situação, a gente é versátil e sabe sê-lo em cada circunstância. O bairrismo é intenso, os segredos são escrupulosamente respeitados para que a espionagem de outros bairros não surta efeito. As rivalidades são essencialmente regionais: Alfama com o Castelo e a Mouraria; a Bica com o Bairro Alto e a Madragoa; Santa Engrácia com São Vicente; Marvila e o Beato; Carnide e Lumiar... são rivalidades a maior parte do tempo saudáveis, mas também podem dar pancadaria, sabotagens, e outras partidas que, no fim de contas, rimo-nos todos juntos delas. Com um copo tudo se aviva, com outro copo tudo passa.

O concurso das marchas começou em 1932, e foi uma das poucas heranças do Estado Novo que, felizmente, ninguém teve o desplante de com ela acabar ou desacreditar. O apoio da Câmara Municipal de Lisboa é, aliás, e como sempre tem sido, muito importante para a realização destas festas que têm os seus pontos altos nos casamentos de Santo António e nas marcha populares. As marchas envolvem muita gente que, agora só contando com os que trabalham directamente para as marchas, somando os 20 bairros mais as marchas dos Mercados e a da Voz do Operário, estimam-se que sejam pelos menos 2500 pessoas. O bairrismo é cidadania, é amor pela cidade, é companheirismo, é mostra de talentos, e é um excelente cartão de visita oferecido aos turistas.

Entristecem-me aqueles snobs que têm a mania de desdenhar tudo o que lhes cheira a popularucho, que escrevem e ridicularizam tudo aquilo a que gostam de chamar "baixa cultura". Comparam as marchas populares com o Carnaval do Rio e ainda dizem que o que é nosso é pior. Mas faz-lhes falta entrar numa marcha ou acompanhá-la de perto, porque ainda não perceberam como isto é importante para os lisboetas, tão único como o fado. Não compreendem as lágrimas da senhora debruçada na varanda do Castelo, nem se esforçam por o fazer, porque simplesmente não lhes interessa. Dizem que é "baixa cultura", acham que não é chic nem intelectual, e viram-se para os clássicos da literatura e da filosofia, pois só com estes se querem comover, esquecendo-se que todos os grandes clássicos só o são porque têm a virtude de ler tão bem a natureza humana, aquela natureza que desprezam na velhinha do Castelo.

A noite do 12 de Junho passou-se à espera dos resultados do júri até de madrugada. Entre sardinhas, febras e sangria, só as anedotas e imitações da cantadeira Emília encurtaram um pouco a espera e a ansiedade. Bateram as 6 da manhã, e com elas batemos tachos e tambores cantando a alvorada que acordou o Castelo em festa. Outra vez se povoaram as janelas, as varandas, muitos não acreditavam que, passados vinte e um anos, a sua marcha tinha ganho novamente.

- E é e é e é... o Castelo é que é!

Juntavam-se à fanfarra as mulheres de roupão, marchando e cantando connosco pelas ruas fora. Depois de uma longa directa, a festa ainda durou umas 3 horas, e só nos deitámos porque no outro dia tinhamos nova actuação na Arruda dos Vinhos.

- A minha marcha é linda!

Uma marcha não tem valor. Pode-se até fazer o cálculo económico das despesas, mas isso nada significa ao lado do valor sentimental e simbólico que tem para o bairro. A marcha não é só dos marchantes e da comissão, é dos reformados que fazem os arcos e os altares, é das costureiras que tiram medidas e executam os fatos imaginados pela figurinista. É do clube e das pessoas que contribuem com as mais variadas iguarias que nos dão força para marchar. É dos cafés, restaurantes, lojas e empresas de bairro que nos patrocinam quase todos. É de todos os moradores e ex-moradores que vibram com o bairro. É daqueles que nunca lá moraram, mas que se sentem de lá, de coração. E é de Lisboa inteira, até das outras marchas que nos dão luta para fazermos mais e melhor. É de Santo António.

Já a meio da manhã, entre danças abraços e beijos, todos se congratulavam. Demoraram-se as despedidas. "Gravaste as marchas na SIC?" "Sim, sim! Amanhã compra também o Correio da Manhã, que saimos lá!" O Castelo velhinho que é a coroa desta Lisboa sem par, como cantou Amália, está orgulhoso do seu trono, 21 anos depois. E tal como doutras vezes que ganhámos, desta nunca mais nos esqueceremos.

domingo, 7 de Junho de 2009

4 minutos e 33 segundos de reflexão

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Em dias de reflexão eleitoral, trazemos à conspiração o 4'33 de John Cage para orquestra.


Melhor ainda, hoje, só a Marcha do Castelo. A partir das 21h30m no Pavilhão Atlântico, depois da Graça e antes da de Alcântara. Porque "foi no Castelo que Lisboa ganhou chão"!
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sexta-feira, 5 de Junho de 2009

os patriotas da língua que afinal são só garganta

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Raramente aprecio citações embutidas num texto ou em um qualquer discurso. Se for muito necessário fazer a citação, contento-me bastante mais se ela for precedida e seguida de espaços ou momentos de silêncio. O silêncio realça o texto, que fala por si, e que não fica submetido ao barulho das nossas intenções. Não creio que, como alguns gostam de dizer, as citações demonstrem a falta de ideias próprias de quem as faz, antes pelo contrário, penso que normalmente demonstram capacidade de relacionar ideias.
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Mas o mal das citações é esse mesmo! É que, na maioria das vezes, estamos a trair o sentido que o autor original queria dar a essas palavras, muitas vezes sem querermos, e noutras vezes de propósito, só para servir as nossas argumentações. Estas últimas são as mais infames.
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Em vésperas de eleições europeias lembro aqueles que se apoiam n'a minha pátria é a língua portuguesa de Pessoa para reduzir a pátria somente à língua e poderem entregar Portugal ao comando europeu sendo patriotas. Não vou dizer que Fernando Pessoa defendia o contrário, pois estaria jogando a mesma partida daqueles que corrompem a sua mensagem. Só Pessoa pode falar por Pessoa, e presumo que cada morto nunca se defende como gostaria dos usurpadores da sua palavra.
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Não serve este postal para indicar qual o melhor caminho para Portugal, deixo por um momento essa especuladora tarefa para outros. Apenas quero dizer que o europeísta, o federalista, o unionista, por mais que citem Pessoa, não são patriotas. É que, a bandeira, o hino, a moeda, a zona exclusiva de pescas, a agricultura, as forças armadas, os negócios estrangeiros, a ASAE, as leis, a cultura e muitos elementos mais, também são pátria, não é só a língua. Como o outsourcing está na moda, querem até fazer um outsourcing da nossa responsabilidade, desta nossa nacionalidade e independência. Tudo se entrega de mão beijada, tudo. E com o acordo ortográfico, parece que já nem a língua portuguesa merece o respeito destes "patriotas".
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terça-feira, 2 de Junho de 2009

o fado tem futuro na Carminho

Antes de ontem fui com um amigo à FNAC ver se arranjava o tão esperado CD da Carminho - Fado. Já a ouvi ao vivo, alia ao seu jeito puro de fadista uma voz poderosa mas bela. Procurei, nem nos tops nem nas prateleiras estava, perguntei à menina que avisou:

- Só a partir de amanhã, que é o dia do lançamento.

Ah bom. Voltei a tentar ontem, passei no Corte Inglês com outro amigo, eram aí umas 4 da tarde.

- O CD da Carminho? Desculpe, já esgotou.

Como vale a pena, hoje saí de casa apostado em encontrar uma loja que ainda tivesse o seu primeiro CD, mas a meio do caminho dei conta que me tinha esquecido da carteira em casa.

E enquanto não resolvo esta faena, tenho ao menos o consolo de já se poderem ouvir dois dos novos fados desta mui promissora Carminho no youtube, em videoclips realizados por João Botelho, seu admirador. Eis "A Bia da Mouraria", da Carminho Rebelo de Andrade.

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

fontes de sabedoria

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Por uma questão de organização, e aceitando sugestões conspirativas, resolvi pôr ordem na lista de "fontes de sabedoria" - barra lateral à esquerda. Os linques estão agora organizados por temas:
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- (b), de blogues
- (c), de cómicos
- (e), de espirituais
- (f), de fados
- (h), de história
- (j), de jornais
- (o), de orientais
- (p), de pessoais
- (r), de revistas
- (s), de sites
- (t), de taurinos
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A Conspiração das Teorias é um blog feito para quem quer demorar um bocadinho, e por isso dá música a quem quer ouvi-la, e os linques valem muito, daí este novo índice. Ou seja, apesar da habitual prosa, nem tudo está perdido. Houve contudo blogues que chamei de revistas, e sites que classifiquei como blogues, ou ainda outras ligações que podiam caber em mais que uma das categorias apresentadas. O critério da classificação foi apenas o conteúdo. Como é óbvio, discordo de muitas ideias contidas nesses sítios, basta ver como alguns, em confronto, se contradiriam. No entanto, a sua razão de estar aqui é o merecerem leituras interessadas.
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Aproveito para agradecer a gentileza de João Marchante (linque "Eternas Saudades do Futuro"), Cristina Mendes Ribeiro, e Samuel de Paiva Pires (ambos do "Estado Sentido"), que tiveram a simpatia de distinguir esta conspiração nos seus magníficos blogues. Muito agradecido!
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E como os últimos são os primeiros, um abraço a todos os caríssimos conspiradores que, comentando ou passando sem deixar rasto, voltam sempre a este vosso espaço para me acompanhar. Muito obrigado.
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sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Feria de San Juan - Badajoz

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Está fechado o cartel para a feira de San Juan de Badajoz e, como é costume, são grandes os nomes que por lá vão passar. De sábado 20 de Junho a quarta-feira dia 24, o cartel é o seguinte:
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Dia 20 - 6 touros de Los Espartales, para os cavaleiros Pablo Hermozo de Mendoza, Diego Ventura, e Manuel Lupi (foto cima esq.) que toma a alternativa. Este dia é de encontro entre países irmãos: Hermozo de Mendoza, um espanhol de Estella, Navarra; Diego Ventura, nascido em Lisboa é português pelo lado do pai e espanhol pela mãe; e Lupi, português por ambas as partes. Maior equilíbrio de nações não se podia pedir no primeiro dia destas festas raianas, mas o que interessa é que os touros saiam bons e a tarde se desenrole entretida nesta data que é para Lupi particularmente especial. Será interessante ver em que resulta o despique entre Mendoza e Ventura, que ultimamente tanto têm rivalizado, dentro como fora das arenas.
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Dia 21 - 6 touros de Jandilla, para El Fundi, José Tomás e Miguel Ángel Perera, este último da casa. Para além do veterano Fundi, as atenções estarão postas em José Tomás e em Perera, talvez os dois matadores mais credenciados da temporada presente e da última. Se os touros colaborarem, tê-los no mesmo dia será um privilégio para os olhos.
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Dia 22 - 6 touros de Zalduendo, para Antonio Ferrera, Morante de la Puebla e, novamente, para Miguel Ángel Perera. Para além de Perera, a raça e as banderillas do extremeño Ferrera e a elegância do artista Morante (foto cima dta.) quando está inspirado, são ingredientes mais que suficientes para uma belíssima tarde de triunfos.
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Dia 23 - 6 touros de Bernardino Píriz, para Javier Solís, Ambel Posada e Jairo Miguel. Como todos os anos, há um dia que é dedicado aos toureiros da região. Registo para Ambel Posada (foto baixo esq.), que já deixou faenas de boa memória, e que, de perfil, faz lembrar um conhecido quadro onde o grande Manolete aparece pintado. Nunca vi Jairo Miguel, mas sei que o rapaz de 16 anos é valente, já teve uma colhida no México em 2007, que o deixou quase às portas da morte, e mesmo assim decidiu continuar na arte, e tomará a alternativa amanhã em Cáceres.
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Dia 24 - 8 touros de Daniel Ruiz, para Enrique Ponce, Antonio Ferrera (novamente), El Juli, e Cayetano Rivera Ordóñez. Dia de São João é dia de festa em Badajoz, e por isso serão apresentados não seis, mas oito reses bravas. Também o cartel deste dia é de alto calibre, com destaque para a mestria e seriedade de Ponce e de Juli (foto baixo dta.). Cayetano, para além da raça que demonstra na arena, tem o mérito de trazer à praça muitas senhoras aficcionadas.
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Tudo aponta para uma excelente Feria de San Juan, e em princípio a Conspiração das Teorias estará presente para trazer a reportagem destes dias ao estimado conspirador que nos lê.
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os portugueses emigrados são os que se ficaram

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Para dizer tudo numa palavra, Portugal, para os verdadeiros portugueses, se tornava um país inabitável. Ao contrário da denominação histórica que se tornou corrente, os verdadeiros estranjeirados eram realmente os que, ficando em Portugal, serviam o poder; os outros, os que emigravam o mais que podiam, esses eram os reais portugueses, os portugueses tradicionalistas, os portugueses; que preferiam todos os incómodos de um exílio à dor de viver numa pátria que, de sua, só tinha o elemento material de céu, terra e mar.
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in "Reflexão à margem da literatura portuguesa", de Agostinho da Silva

terça-feira, 26 de Maio de 2009

Lisboa é uma festa!

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Estão quase aí as festas de Lisboa, com os seus santos populares, principalmente o casamenteiro Santo António, as febras e as sardinhas, o vinho, os manjericos, os balões e os arraiais, os amores e as marchas. Todos os anos se apresentam no Pavilhão Atlântico e na Avenida da Liberdade 18 marchas, sendo que neste 2009 se estreiam a Marcha de Belém e a Marcha da Baixa. Esta tradição das marchas descendo a Avenida já vem de 1932, quando foi organizado por Leitão de Barros e Norberto Araújo o primeiro Concurso das Marchas Populares de Lisboa, onde participaram apenas 6 bairros - Alcântara, Alfama, Alto do Pina, Bairro Alto, Campo de Ourique e Madragoa. Hoje, cada bairro tem de cantar 4 marchas, sendo que 2 das marchas são inéditas desse bairro (desse ano), 1 marcha é antiga do bairro (de outro ano), e 1 marcha é de Lisboa, comum a todos os bairros. O tema que ganhou o concurso para a Marcha de Lisboa este ano é o "Lisboa é uma festa" de José Reza e Joaquim Isqueiro, e trata-se de uma homenagem à grande alfacinha Amália, no 10º aniversário da sua morte. Fica aqui a letra, para todos cantarmos na noite de 12 de Junho com os marchantes que descem a Avenida!
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LISBOA É UMA FESTA
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Letra de: José Reza e Joaquim Isqueiro
Música de: José Reza
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No céu bailam gaivotas
Por cima de uma canoa
O Castelo abre as portas
É sempre festa em Lisboa
E Amália tão bem cantou
No fado nossa cidade
E o até Tejo marchou
Ao descer a Liberdade
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Vem daí menina
Tua marcha é esta
Num balão acesso
Lisboa é uma festa
Vem daí rapaz
Não marches à toa
E traz um amigo
Que queira contigo
Abraçar Lisboa
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Há um palco em cada rua
Onde o povo é sempre artista
Lisboa é uma festa
Cantada numa Revista
Se Amália cá estivesse
Marchava na Avenida
Pois o povo não a esquece
Sua voz nunca é esquecida
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REFRÃO
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Lisboa lembra o passado
Há festa cheira à sardinha
Faz reviver o Chiado
E a minha alma alfacinha
Lisboa de antigamente
Onde Amália era rainha
Cantando p'ra toda a gente
Num arraial à noitinha
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quinta-feira, 21 de Maio de 2009

os dois noivos que a vida separou

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Galiza, Catalunha, Navarra, Andaluzia, Bascos, Levantinos, ao correr da história, pouco mais do que escravos de escravos: porque escravidão, no fim de contas, pelo que respeita a degradação humana, age para os dois lados, para o lado do opressor e para o lado do oprimido. Com uma grande vantagem a favor das regiões periféricas: é que, vencidas, jamais se submeteram; e, no momento oportuno, se poderão comportar como nações livres [livres, do centralismo castelhano] que jamais renegaram a sua liberdade e jamais, abandonando seus mortos, desistiram da luta.

E aqui, ao que me parece, se insere a grande façanha de Portugal. O que Portugal fez de maior no mundo não foi nem o descobrimento, nem a conquista, nem a formação de nações ultramarinas: foi o ter resistido a Castela. O ter mantido, através de sangue e fogo, o princípio de independência dos territórios periféricos. E o ter mostrado, naquilo que cabia em suas forças, e mais do que isso, porque verdadeira história só se faz assim, naquilo que estava muito para além de suas forças, de que modo uma Espanha [em sentido amplo, de Península] livre e convivente poderia ter transformado a face do mundo.

[...]

Por ter garantido a possibilidade, pelo menos em amostra, de arquitectar o que teria sido um universo verdadeiramente católico, vejo eu Aljubarrota como a maior batalha da história, a par daquela outra em que Constantino venceu Justiniano. Não apenas por isso, no entanto. Mas igualmente porque é só em Portugal que as outras nações da Península podem ver uma esperança e um ponto de apoio para uma futura liberdade.

[...]

Só que, por fatalidade, e logo desde o começo, faltou a Portugal, para uma plena acção, a companhia e a integração de seu complemento natural para os lados do Norte.

[...]

Mas tempo vem, atrás de tempo; se há «talvez» para o passado da História, há «talvez» igualmente para o futuro da História; pode ser que um dia a reintegração da Península em si mesma, na sua liberdade essencial, se faça através da reunião de Portugal e de Galiza. Dos dois noivos que a vida separou.

in "Reflexão à margem da literatura portuguesa", de Agostinho da Silva

quarta-feira, 20 de Maio de 2009

lembrando "Bruddah IZ"

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Nascido a 20 de Maio de 1959 no Hawai'i, Israel Kamakawiwo'ole faria hoje 50 anos se fosse vivo. Com um porte distinto (1,90m de altura e quase 350kg de peso), o cantor e compositor insular não se separava do seu ukelele (descendente americano do muito nosso cavaquinho), que tocava com mestria enquanto cantava o amor, a natureza, e também a causa da independência do Hawai'i. Se o quisermos enquadrar num género musical, podemos tentar encaixá-lo entre o jazz, a música folklórica hawaiana e o reggae, mas a verdade é que a sua enorme versatilidade nos dificulta muito esse redutor trabalho de rotulação. Embora "Bruddah IZ", como era carinhosamente chamado, tenha marcado muito a cultura e identidade contemporânea daquelas ilhas, foi contudo um medley que fez dos temas Over the Rainbow e What a Wonderful World que lhe deu maior projecção internacional. IZ morreu com 38 anos em 1997, devido a problemas de respiração causados pela sua obesidade. O seu funeral teve honras de Estado e mais de 10.000 pessoas a assistir, e ainda hoje as suas melodias continuam na moda, nas telenovelas, nos filmes e nos anúncios publicitários, ecoando pelo tempo em corações que as suas interpretações tão bem sabem comover e contagiar.
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terça-feira, 19 de Maio de 2009

educação sexual nas escolas, não!

Se é dos que acham que os pais não sabem educar os filhos nem sabem fazer boas escolhas, se considera que deve ser o Estado a tratar de tudo, se é pela educação sexual obrigatória nas escolas (públicas, e também privadas, já agora!)... então este vídeo é para si. Gravada por uma aluna de 12/13 anos em Espinho, esta singela demonstração diz tudo.

quinta-feira, 14 de Maio de 2009

prémio rosa murcha - I

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A Conspiração das Teorias inaugura desta forma o "Prémio Rosa Murcha", que visa distinguir aqueles socialistas e colaboracionistas do socretinismo que se destacaram pela sua especial incompetência, gaffes, ou por seus tiques tirânicos. Elisa Ferreira é a primeira infeliz contemplada, e a escolha é merecida: para além de não mostrar vergonha em concorrer simultaneamente a duas eleições para cargos públicos profissionalmente irreconciliáveis - deputada europeia e a presidência da Câmara Municipal do Porto -, em lugares elegíveis e tomando os eleitores por ignorantes descerebrados, teve o descaramento de dizer em campanha autárquica:
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Pintaram os bairros, mas esqueceram-se de vos dizer que o dinheiro é do Estado, é do PS!
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O dinheiro do Estado é do PS? Exmos. eleitores, desta Elisa, free Porto!
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terça-feira, 12 de Maio de 2009

a criminalidade e os bairros sociais em análise

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Sobre os últimos incidentes de criminalidade ocorridos em bairros sociais, algumas notas breves:
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1. Por causa de pequenos grupos de delinquentes, há bairros sociais que são estigmatizados como um todo, a muitos níveis, até na busca de emprego. Conheço pessoas que, para além da carga social de serem pobres, desempregados, deficientes ou de outras raças (que mania palerma agora, a de chamarem "etnias" às raças!), se puderem, não dizem em que bairro moram, porque já lhes aconteceu serem prejudicadas por o dizerem. É necessário estimular os grupos e as lideranças desses bairros para que mostrem as coisas boas que têm à sociedade, e que a comunicação social dê também antena a iniciativas positivas, e não apenas aos acontecimentos negativos. O contraditório e o direito de resposta valem para indivíduos, empresas e partidos que querem defender os seus egos, mas infelizmente ainda não serve para limpar a imagem de bairros inteiros que, muitas vezes, é injustamente manchada.
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2. Os problemas da criminalidade não podem ser reduzidos à questão da emigração. Quanto à emigração, é óbvio que o País deve criar condições para acolher (e não apenas "tolerar") todos aqueles que procurem Portugal para trabalhar e viver. Na falta dessas condições, é nosso dever sermos parcimoniosos na admissão de emigrantes. No entanto, aqueles que já cá estão, têm de ser tratados com toda a dignidade que um português tem e que uma pessoa merece. A vocação histórica do nosso povo passa pelo acolhimento e integração da diferença, pelo respeito multicultural e pela amizade cívica. Agora, é extremamente perigoso e errado insistir em pegar à criminalidade um rótulo de emigração, pois é o mesmo que colocar a todos os emigrantes um selo de criminosos. Esta premissa generalizadora, além de racista e perigosa, pura e simplesmente não é verdadeira.
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3. O urbanismo social tem sido, em geral, mal desenhado. Não só criou guetos erguidos em espírito de apartheid (ciganos para um lado, brancos para aqui, pretos para acolá), como o próprio conceito de "bairro social" é, quanto a mim, errado, principalmente se há casas abandonadas ou desabitadas que são das Câmaras Municipais e nada rendem, antes pelo contrário, prejudicam as vizinhanças. O ideal de integração social seria que em cada bairro houvesse habitantes de todas as condições sociais, tanto quanto fosse possível ao poder municipal de fomentar. Era de entregar estas casas a quem precisa em vez de as distribuir pelos amigalhaços, e cobrar uma renda adequada ao sítio e às possibilidades da família alojada - uma renda justa e aceitável. Recuperava-se e humanizava-se os bairros antigos, a integração dos desfavorecidos seria mais fácil, poupava-se dinheiro, evitava-se a necessidade de mais guetos sociais.
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4. Os contratos locais de segurança são, efectivamente, passos positivos que se têm dado. Se muitas coisas más há a apontar ao actual governo socretino, nem tudo é trevas: também há iniciativas boas que devem ser valorizadas, e estes contratos são uma delas. Através destes acordos, o Estado apoia (em meios e em dinheiro) as associações locais que se encontram nos bairros, mesmo em campo, e que melhor que ninguém sabem quais são os problemas e como lhes dar resposta. Sublinho, é de louvar esta medida.
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5. No entanto, os contratos locais de segurança não chegam. É necessário abrir esquadras de polícia nestes bairros. É necessário um policiamento de proximidade, de facto. A Polícia é mal vista e até mal-vinda nestes bairros, pela simples razão que, sempre que aparecem, é pelas piores razões: repressão, buscas, rusgas, detenções de suspeitos, etc. - o que faz com que as famílias se solidarizem numa frente comum contra a intrusão policial, sem saber qual a pior das inseguranças, se a dos gangs, se a dos azuis. A Polícia actualmente é reactiva, quando deveria ser preventiva. Com esquadras de bairro, os polícias deixam de ser aqueles indivíduos que fazem papel de maus e de brutamontes securitários, para passarem a ser entendidos como amigos que estão lá para o bem das populações, para as proteger. Faz muita diferença o Sr. Agente passar a ser o Agente Silva, faz toda a diferença ele conhecer o Joca dos berlindes, a D. Maria da limpeza e o Sr. André do talho, em vez de os olhar a todos como suspeitos da traficância de droga, das armas e da prostituição.
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6. Com o apoio às instituições locais, com esquadras de bairro, policiamento de proximidade (mais polícias a andar a pé, menos polícias a passar de carro), com melhores planos urbanísticos, com boas escolas em articulação com as universidades e a malha empresarial da zona, e com esforços de integração social e cultural das pessoas, estas populações respirarão novos ares de cidadania.
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sexta-feira, 8 de Maio de 2009

muito antes de Galileu, houve um Chang Heng

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O sentimento de superioridade da China foi ainda mais reforçado por uma avalanche de invenções e de descobertas. Na altura do nascimento de Jesus Cristo, os chineses já tinham inventado o sistema decimal, o papel, a produção da seda (incluindo farrapos de papel feito de seda para transmitir notícias), o colar para os cavalos e a charrua. Tinham compreendido o mecanismo da circulação do sangue e - quinze séculos antes de Galileu - um brilhante cientista e matemático, de nome Chang Heng, inventara o sismógrafo e apresentara o mundo como um globo, para o qual se podia olhar através de uma espécie de grelha cartográfica. Alguns séculos mais tarde, os chineses iriam inventar a pólvora, os fósforos e, até, descobrir o princípio dos rotores e das hélices dos helicópteros.
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in "O Dragão e os diabos estrangeiros - A China e o mundo, de 1100 a.C. até à actualidade", de Harry G. Gelber
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terça-feira, 5 de Maio de 2009

vox populi - IV

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Hola, o meu nome é Angel e tenho uma data de anos. Nascido e criado em Sanguesa, se me dizem "então és navarro!", logo respondo "hombre, que no, que soy un español de Navarra!". Sempre fui muito patriota. Conduzi ambulâncias durante a guerra civil, vejam lá, já tenho a carta de condução há mais de 75 anos!
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Naquele tempo a guerra era diferente, como aliás era tudo. Mas a guerra, essa terrível desventura, nunca mais a esqueço, não preciso que o Zapatero e a sua canalha venham cá com leis da memória histórica para me lembrar de coisas que me esforço por esquecer ou ao menos pacificar dentro de mim.
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Lembro-me de recolher corpos, de ambas as facções da guerra, de moribundos furados por metralha de lado a lado... metia-os para dentro da ambulância e muitas vezes tinha de ser eu a intervir antes que me morressem pelo caminho. E sacar para fora todos aqueles tiros escondidos pela carne e pelo sangue? Era através dum detector de metais que sabia mais ou menos onde tinha de agir, sempre que apitava, tu-tu-tuuu...
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Hombre, ainda salvei muitas vidas, ou melhor, adiei-lhes a morte! Agora, quase só cá estou eu para contar estas histórias.
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segunda-feira, 4 de Maio de 2009

como morre um bravo

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Ceferino Giménez Malla foi domador de cavalos e cesteiro (fazia cestos artesanalmente), era espanhol, leigo da Ordem Franciscana Secular, e casado com a sua prima direita Teresa Giménez. Com 75 anos de idade, morreu fuzilado em plena guerra civil espanhola, em 1936, por tentar proteger um sacerdote que estava sendo ferozmente espancado por milicianos republicanos – rojos. Dizem os relatos que El Pelé, como era chamado, morreu de rosário na mão gritando: "Viva Cristo Rei!". Este acto de heroísmo é apenas uma amostra da vida santa que El Pelé levou. Por isso, este mártir foi beatificado por João Paulo II faz hoje 12 anos.
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Dedico este pequeno postal biográfico a todos aqueles que dizem que não são racistas, a menos que se fale de ciganos. É que o bravo São Ceferino era cigano com muita honra em sê-lo, procurando sempre todos os pretextos para estabelecer pontes entre as nossas culturas.
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São Ceferino, rogai por nós!
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quinta-feira, 30 de Abril de 2009

algumas virtudes d'um chefe de família

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Passo quase todo o dia fora de casa, ocupado em assuntos alheios, e o resto do tempo passo-o com a família, por isso que o tempo que fica para mim, isto é, para a correspondência, é nenhum.
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Quando regresso a casa, tenho de conversar com minha mulher, de brincar com as crianças, de me entender com o pessoal doméstico. Meto estas coisas nos afazeres, pois têm de ser feitas, e têm de o ser caso não queiramos ser estranhos em nossa própria casa, sendo necessário ter as mais simpáticas relações com os companheiros da vida que a natureza ou o acaso nos deram, ou que nós escolhemos, sem ir ao ponto de os mimar por excesso de familiaridade, nem de fazer, dos servos, senhores. Tudo isto leva os dias, os meses, os anos.
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in "Epístola a Pedro Egídio", de São Tomás Moro
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sábado, 25 de Abril de 2009

flores alfacinhas

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Há três flores típicas que muito dizem ao povo lisboeta. São elas o cravo, a alcachofra e o manjerico. Infelizmente, o cravo foi politizado pelo Abril de há 35 anos, e usá-lo passou a ser um acto de manifestação política e partidária.
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Mas, se o cravo foi politizado, a alcachofra e o manjerico permanecem puros na alma alfacinha. Os manjericos e as alcachofras continuam a ser cantados nas marchas de Santo António, sendo ambos os vegetais associados aos amores namoradeiros que o santo apadroa.
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Rogo apenas que não estraguem estes dois símbolos populares que nos restam, ao contrário do que fizeram com o belíssimo e outrora castiço cravo. Seria uma pena se tal acontecesse, pois estas perdas culturais são muito difíceis de se repor.
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sexta-feira, 24 de Abril de 2009

a história do Fado na Mouraria

Tia Macheta (canta Berta Cardoso)

O amante não aparecera,
Triste Severa,
Sempre fiel,
Chamou a tia Macheta,
Velha alcoveta,
P’ra saber dele.

A velha pegou nas cartas
Sebentas fartas
De mãos tão sujas
E antes de as embaralhar
Pôs-se a grasnar
Como as corujas.

Ele não vem, minha filha,
di-lo a espadilha,
há maus agoiros.
Há também uma viagem,
Um personagem
A dama d’oiros.

Este conde é o meu fraco,
Tome um pataco
Tia Macheta.
A velha guardou as cartas
De sebo fartas
Sob a roupeta.

Caíram três badaladas
Fortes, pesadas,
Três irmãs gémeas;
Cá fora nos portais frios
Cantam vadios
Feias blasfemas.

O fidalgo não voltou,
Severa o esperou
Até ser dia.
E desde essa noite, é que existe
O fado triste da Mouraria.

quarta-feira, 22 de Abril de 2009

música conspirativa

Não, este postal não é sobre o belíssimo novo tema dos Xutos&Pontapés, Sem eira nem Beira, mas até podia ser. O álbum de estreia dos Afromen chama-se "Mentalidade", e o nome diz quase tudo. Trata-se de uma sonoridade que anda entre o hip hop e o rap clássico, muito contagiante, acompanhadas de sumarentas letras de verdadeira intervenção política - principalmente ao nível da mentalidade e dos comportamentos sociais. É o som que está a dar em Angola desde Dezembro, quando o CD foi lançado, e que está chegando a Portugal apesar de ainda não constar na Fnac.

Yannick Ngombo, o vocalista e líder deste grupo, já anda nestas lides há mais de 10 anos, mas depois de viajar pelo mundo voltou a Angola com novidades para contar. Afromen põe o dedo em algumas feridas da actual sociedade angolana, e denuncia tendências viciosas que devem ser combatidades com valores como o respeito, a lealdade, a boa vizinhança, a autenticidade, a humildade, a esperança. Embora dirigida aos angolanos, a mensagem de Yannick serve que nem uma luva à sociedade portuguesa. Nesta faixa, o rapper lembra algumas virtudes do bairrismo saudável. Também na banda sonora d'a Conspiração, aqui na barra do lado, podemos escutar o grande hit de apresentação deste novo grupo a ter em conta: Afromen - 1, 2, 3.

Hoje, se o vizinho tá doente

não adianta perguntar

e dizer tem o quê?

Não vai dizer a verdade

e no coração vai dizer "seu fofoqueiro"

terça-feira, 21 de Abril de 2009

redacções de pequenino - I

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Uma aventura na floresta
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Eu fui comprar o jornal quando vi a seguinte notícia:
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Pág. 18 --- Diário de Notícias ---
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Cangurus em extinção nas florestas da Austrália.
Pessoas estão a matar cangurus por divertimento na Austrália e oferecemos um prémio de fornecimento de chocolates para toda a vida a quem prender as pessoas.
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- Isto é um escândalo! - disse eu para comigo.
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Disse à minha Mãe e ao meu Pai que ia para a Austrália em missão secreta.
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Então a minha Mãe disse:
- Não vais se não me contares que missão é essa.
- Ai vou, vou!
- Não vais!
- Ai vou, vou!
- Não vais, não!
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E assim estivemos a falar no resto da semana.
E ao fim dessa semana interferiu o meu Pai na conversa.
E disse o mesmo que a minha Mãe.
E assim ficámos outra semana.
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No fim da outra semana, quando já tinhamos acabado a discussão, vi no jornal que já tinham descoberto os caçadores.
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Tanto trabalho para nada!
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(escrito na 4ª classe)
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quarta-feira, 15 de Abril de 2009

maio florido e formoso

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Marzo ventoso
y abril aguanoso,
sacan a mayo
florido y hermoso.
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Sabedoria popular da Extremadura espanhola
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segunda-feira, 13 de Abril de 2009

ensaio para uma reabilitação da raça

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As palavras têm vida própria. Surgem da necessidade de definir uma coisa ou de expressar uma ideia ou sentimento. Podem constituir-se de sons que têm foneticamente a ver com a coisa expressa (como o c’ÃO, que lembra o seu ladrar), ou podem ser construídas de forma mais lógica e racional. Uma coisa é certa, quando a palavra se forma parece ser esse o seu momento mais representativo da realidade que pretende ilustrar. E a partir daí, a palavra entra numa espiral descendente e sem retorno, em que não mais pára de se corromper, até ficar tão distante do objecto que é pelas gentes abandonada e cai em desuso. Se não morre, a expressão fica no mínimo moribunda, aguardando que alguém dela se recorde e a recupere.
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Uma das velhinhas palavras que parece estar pela hora da morte é “raça”. Pudemos diagnosticar um sintoma dessa fatalidade no ano passado, no dia de Portugal e de São Camões. No seu discurso, o Presidente da República tentou reabilitar o termo e invocou o “dia da Raça”, como outrora havia sido chamado. Todavia, ao invés de “raça” ter voltado à ribalta, todos caíram em cima do Primeiro-Damo por fruição tão reaccionária e imprópria da linguagem, tendo a expressão saído desta peripécia ainda mais escavacada.
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Por culpa de uma memória colectiva acerca da História do Racismo, da dominação e subjugação de raças por outras raças, por culpa do medo e da culpa que as gerações actuais receberam de herança pelos erros de alguns antepassados (a. de sangue ou meramente culturais), por culpa do desejo de igualdade cada vez mais impregnado no ADN das gentes modernas, por culpa de todos estes factores e mais alguns, pouca gente quer falar de “raça”. Se tiverem mesmo de falar de alguma coisa, preferem usar o termo “etnia”, que é mais virgem e não está ainda tão contaminado pela História e pelas pessoas.
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O racismo acontece porque há uma diferença de pele. Mas fará sentido falarmos de raças, se está cientificamente provado que a diferença do ADN entre dois brancos pode ser maior que a diferença entre o ADN de um branco e um preto? A cor significa pouco, à-dê-énicamente falando. E a nível de estética, há cores de pele tão belas e que não são as nossas...
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O racismo acontece também porque há uma diferença de cheiro. Mas fará sentido ter o próximo em menor conta por causa do seu odor diferente? Uma das coisas que os nórdicos notam de diferente em relação a nós, mediterrânicos, é precisamente o nosso cheiro peculiar. Os chineses também o notam, tal como notamos em relação a eles. O suor ucraniano, moldavo ou romeno, quem não estranhou a sua intensidade? E a tão conhecida catinga? E o cheiro de caril? Nós, porque somos nós, pensamos que não temos cheiro distintivo, e temos. É uma questão de educação aprendermos a conviver e a gostar destes e outros cheiros de pessoas. Amar a diferença. É o mesmo que eles fazem connosco...
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O racismo acontece por razões culturais. Mas, em Portugal? Nós, que por vocação somos um povo aberto ao mundo? Não, essa não pega. A nossa cultura existe porque nos globalizámos, mais, fomos os mentores da primeira grande globalização, e se assim não tivesse sido, a nossa cultura seria muito mais moura, inglesa, espanhola, ou americana do que é hoje. É neste espírito de abertura que podemos continuar a sobreviver como cultura.
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O racismo acontece ainda por causa de traumas históricos herdados dos nossos antepassados, tenham eles sido os dominadores, os dominados, ou simplesmente conformistas e cooperantes. Mas fará sentido guardar esta herança como barreira que nos impede de nos darmos mais e melhor uns aos outros? Ou não valerá mais a pena tê-la apenas como uma infelicidade que devemos recordar na exacta medida em que nos salvar de cometer novamente semelhantes erros?
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Os portugueses são historicamente um povo de generosidade e aventura, de qualidades humanas que nos permitiram encontrar a amizade e o amor noutras raças e culturas. Deus criou o homem, e o português criou o mulato e o mestiço – diz a anedota, como que nos caracterizando, e bem. Os portugueses têm o jeito que Eminem ou Michael Jackson não tiveram para se integrarem e para se meterem na pele do próximo. O branco Eminem, que canta, fala, veste, tudo faz para ser preto, ou Jackson que aclara a pele que tinha para tentar ser branco, nem um nem outro têm sido bem acolhidos pela sociedade. Porquê? Espera-se de um branco que saiba nascer branco e de um preto que saiba nascer preto. Se o branco se quer aproximar de preto (ou vice-versa), que o faça por amor ao próximo e ao seu modo de estar na vida, mas sem negar as suas origens.
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Há um ensinamento cristão que o português compreendeu bem ao longo da História, e que é muito valioso para este caso: “Ama o próximo como a ti mesmo”. Não sou sincero no amor ao próximo se renego as minhas origens, de onde venho. Não vou ser bem sucedido naquilo que quero ser enquanto rejeitar aquilo que fui e sou. Penso que é isto que Jackson e Eminem ainda não perceberam, e que podiam aprender connosco.
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Afinal, parece que Cavaco estava certo: precisamos de um dia da raça. Contudo, tal só faz sentido se reconhecermos que a Raça Portuguesa não tem cor de pele, mas cor na alma... a cor do amor a Deus, ou pelo menos do amor ao próximo como a nós mesmos!
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quinta-feira, 26 de Março de 2009

castidade, a proposta que combate a SIDA

video

A propósito das sábias mas "politicamente incorrectas" declarações do Papa acerca dos preservativos e da abstinência, traz-se à Conspiração este belíssimo exemplar de comunicação que é um vídeo da campanha moçambicana de prevenção contra o vírus SIDA/AIDS/HIV. É na castidade e na lealdade que está a resposta que combate a promiscuidade sexual, que é a base do vertiginoso aumento do contágio de SIDA em África e, cada vez mais, na Europa. Não conheço uma campanha publicitária de preservativos (Control, Durex, etc.) que desincentive esta mesma promiscuidade sexual. Zero. Nenhuma! Antes pelo contrário, incentivam e contribuem na medida do possível para o crescimento deste lucrativo pântano onde chafurdam.

quarta-feira, 25 de Março de 2009

o dia da renovada esperança

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Em tempos de crescente desânimo, uma antiga notícia é hoje especialmente bem-vinda, como todos os anos o é neste dia: a anunciação. Exactamente 9 meses antes do Natal, é a 25 de Março que a esperança da salvação começa a ganhar contornos reais. Por mais Judas e Pilatos que haja, por entre Herodes e Invernos (tanto os naturais como os económicos, demográficos ou de valores), do frio sai a Primavera e com ela renasce o amor, a fé, a esperança. Avé Maria, cheia de graça!
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segunda-feira, 23 de Março de 2009

vox populi - III

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Chamo-me Maria da Conceição e a história da minha vida resume-se a umas poucas de linhas, muito breves e dramáticas. Nasci numa pequena aldeia de serra algarvia, e lá vivi até aos meus 14 aninhos quando fui trabalhar para casa de uns senhores em Lisboa.
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Que bons eram esses senhores... ensinaram-me a cozinhar e a limpar, enfim, a lida da casa, e trabalhei para eles durante 40, quase 50 anos. Uma vida! Sempre dedicada àquela família, não mais voltei à terra, nada me prendia lá, nem sequer família lá deixei. E também, quem é que era a vizinha que se ia lembrar da gaiata que em 50 anos nunca lá voltou? Nunca fiz descontos para a reforma, era feliz e despreocupada cá em Lisboa. Só que...
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O patrão morreu, e a sua senhora foi para um lar doente de alzheimer, ou lá como é que se diz. Eu também arranjei uma doença de pernas que mal me deixa andar, e por causa disso e da minha idade não arranjo trabalho em lado nenhum. Ando devagar, devagarinho, já fui operada mais que uma vez mas parece que isto da perna só fica pior. Internada no hospital ao menos tenho cama, tecto e comida. Mas acabam sempre por me dar alta...
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Os remédios que me receitam são caríssimos. Tenho de pedir na rua ou no metro mas, de tudo o que me dão, só me chega para comer ou para comprar remédios, nunca as duas coisas. Se compro remédios, passo fome; se como, não dá para os remédios.
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E depois olha, tenho de ter a perna descoberta com as cicatrizes à mostra, que é para as pessoas terem pena de mim e me darem qualquer coisinha. Eu sei que desta maneira entra pó e infecta mais, mas o que hei-de fazer? Da outra forma nem para o pão chegava... não me custa chorar assim.
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Hoje tenho 68 anos embora a minha cara diga 86. Poucas coisas me alegram, mas apesar de estar há cerca de 4 anos na rua, ainda não perdi a esperança de arranjar uma casa para trabalhar. Sei lá, por exemplo para estar na cozinha... diziam os meus senhores que eu até me desenrascava muito bem com os pitéus! Que saudades deles, foram mais que a minha família...
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quinta-feira, 19 de Março de 2009

"canción tonta"

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Mamá.
Yo quiero ser de plata.
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Hijo,
tendrás mucho frío.
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Mamá.
Yo quiero ser de agua.
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Hijo,
tendrás mucho frío.
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Mamá.
Bórdame en tu almohada.
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¡Eso sí!
¡Ahora mismo!
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in "Obra Poética", de Frederico García Lorca
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vítimas da heterofobia alheia

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Mais um debate desiquilibrado, faccioso e mal dirigido, desta vez por Fernanda Freitas no seu programa da RTP2, Sociedade Civil. Que desilusão, tinha a Fernanda Freitas em muito melhor conta jornalística. Era novamente sobre o casamento para aqueles duetos de homossexuais que reclamam para si o nome de "casal" sabendo que biologicamente não podem "acasalar", mas que mesmo assim querem "casar", adoptar crianças e até tê-las, por meio de inseminação e outros inéticos artifícios. O sim heterofóbico apresentou-se com os mesmos intervenientes, sempre de homofómetro em punho, prestes a apitar a quem deles discorda. Os media estão realmente a fazer um grande trabalho de casa, mais uns meses assim e alguma carneira sociedade portuguesa estará no ponto exacto que os lobos lobbies pretendem para fazer passar a lei sem muitas dificuldades. Mas, e enquanto protejemos a família, quem nos proteje da heterofobia dos outros?
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sexta-feira, 13 de Março de 2009

as tabernas do século XXI

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Quem gosta de um certo ambiente taberneiro, já não encontra em Lisboa muitos antros genuínos, mas para compensar há bastantes stands de automóveis. Ir a um stand de carros é como colher uma generosa amostra sociológica de tabernice, em vários sentidos.
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Por um lado, os vendedores com o gel penteado com um bocadinho de cabelo, meinha branca, cheirando abundantemente a after-shave contrafeito, com um fino e cuidado risco de pêlos no lugar da patilha, tratando o cliente por "o shôr, pá, faxavôr faj'isto e depois had'me dzer s'eu na tinha razão". E depois casca-se no Sócrates, lamenta-se os resultados da bola, cumprimenta-se alguma senhora que passe e manda-se um piropo entre os godes, mas só quando ela estiver à exacta distância de o ouvir sem o perceber. Até aqui não há problema, é até um género típico que acho que deve ser, em certa medida, preservado.
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Contudo, o que realmente me faz pena é ver cada vez mais mulheres nestes stands, escolhidas a dedo pelo chamariz das suas gulosas curvas, muito escassamente vestidas, e com uma atitude que está algures entre o predadora e o delambida. Atenção, a pena que me faz não é a sua existência, mas o facto de terem de recorrer a todos os argumentos que possam encontrar frente ao espelho para cumprir os objectivos de produtividade empresarial e ganhar bónus, ainda para mais em tempos de crise.
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Uma pessoa que vá a um stand, rapidamente se esquece do que vai lá fazer e para onde há de olhar. É terrível. Mas esta indecisão só dura momentos, pois logo vem uma voz rouca de cama que nos lembra "é por causa do arranjo? por aqui, querido", e arrasta languidamente os seus atributos, aos ésses pelo armazém fora.
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Hoje em dia, tudo isto faz parte do marketing automóvel - dizem -, vender o carro explorando ao máximo a testosterona do público masculino, que é o seu principal alvo no mercado. Só que, pelo contrário, este fenómeno nada tem de novo: inspira-se em profissões muito mais antigas que a própria invenção do carro.
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